Uma Pausa para Ouvir…

Muito mais complexo que o sistema ocular, os ouvidos são a porta de entrada do som para o cérebro. Ouvimos o som, ouvimos nossa imaginação, ouvimos nossas memórias e agora mesmo você ouve a você mesmo quando lê este texto. Para ler texto, vocalizamos as palavras. Quando pequenos, como é importante ouvir outras vez os sons do lugar secreto onde fomos gerados!

Ouvimos o fenômeno chamado som. Imagine que uma onda sonora projetada avança até encontrar um objeto sólido. Uma parte da onda será refletida outra vez na direção da fonte, uma parte atravessará o objeto e a outra parte contornará o objeto e seguirá sua trajetória. O primeiro fenômeno é chamado de reflexão, o segundo de refração e o terceiro de difração.

Curiosidade: Você sabia que o cérebro de cegos utiliza a reflexão sonora para desviar de objetos sólidos? E com isso alguns conseguem até andar de bicicleta? 

As ondas de frequência alta (piccolo, violino) geralmente não sofrem refração ou difração. Costumam ser totalmente refletidas de volta para a fonte. As ondas de frequência mais grave (baixo acústico), mais baixa, em maioria passam por difração e as frequências intermediárias (Violão) possuem comportamento misto.  É por isso que antes de entrar em uma sala de show você só houve a percussão (bumbo da bateria) ou a marcação de ritmos, feita por instrumentos de frequência mais grave como o baixo eletrônico.

Os fenômenos aqui citados são fundamentais para você ouvir aguem te chamando para tomar um café fresco com um pão de queijo quentinho!

Som Direto, indireto e INELEGIBILIDADE

Escutamos o que está diretamente colocado a frente das orelhas. Por isso muitas pessoas quando não entende o que está sendo dito viram a cabeça e posicionam a orelha em direção a fonte, que pode ser outra pessoa falando baixinho. Por isso também falar à orelha é uma das formas de garantir que o segredo foi dito a uma só pessoa… Esperamos.

Curiosidade: Alguns animais conseguem rodar o pescoço até 270° procurando uma fonte sonora. É o caso da coruja.

Estudos demonstram que o cérebro precisa do auxílio dos olhos na localização da fonte sonora na maioria dos casos. O ser humano é predominantemente visual. Se o cérebro não visualizar a fonte sonora poderá imaginar que o som parte de dentro dele mesmo, com os argumentos de “Acho que imaginei alguém me chamando…”, por exemplo, quando realmente há um chamamento.

Também há situações de ilusão acústica. Esta pode ocorrer quando a memória não corresponde ao real. Ou quando o cérebro é sugestionado a uma conclusão. Na música acontece quando alguns cantores não cantam a palavra completamente, mas o ouvinte a ouve totalmente. O cérebro completa a informação com seus registros de memória para que ela faça sentido.

O som direto é importante na comunicação, mas o som indireto é fundamental. E é por causa da audição de sons indiretos e da forma como o cérebro faz o cálculo de direções e distâncias que cientistas acreditam que o ser humano primitivo habitava regiões entre as matas fechadas e o completo descampado. Sim! Você tem um “pequeno sonar” primitivo em seu cérebro.

Curiosidade: Você sabia que cetáceos se comunicam até cinco vezes mais rápido que o ser humano porque cantam?

Não somos estimulados apenas pela energia acústica direta, a frente das orelhas, embora este seja um canal importante. Muito do que escutamos são reverberações, reflexões sonoras em objetos. É por isso que nenhum auditório ou sala onde é esperada comunicação entre os ocupantes pode ser completamente livre de reverberações. É necessário que o som seja refletido a fim de cooperar com a viabilização da comunicação. Porém tais reflexões sonoras precisam ser controladas, caso contrário o som direto se misturará com o som direto e causará prejuízo a inteligibilidade das palavras, principalmente. No caso da música onde há a voz humana e o desejo de ser transmitida uma mensagem cantada, o cuidado ocorre com os instrumentos musicais que não devem concorrer com a voz.

Se a reverberação do ambiente não permite que os ruídos das consoantes sejam claros ao ouvinte, por privilegiar determinados grupos de frequências ou abafar algum grupo, palavras no português como “casa” e “asa” podem ser confundidas. A consequência é o maior esforço do cérebro para concentração na comunicação. Isso pode deixá-lo cansado e estressado e ocorrerá prejuízo no entendimento e na aprendizagem.

O som deve ter seu percurso livre de interferências que prejudicam a atividade classificatória cerebral. Há pelo menos três etapas neste percursos. O meio físico onde o som é gerado, o meio auditivo de captação da informação sonora e o meio neuropsicológico de interpretação da informação.

Ouvimos no cérebro e não nas orelhas. As orelhas recebem energia acústica e a transforma em energia mecânica e depois em pulsos elétricos. Estes pulsos são interpretados pelo cérebro mediante memória existente ou para a formação de uma nove memória. Em cada etapa há uma pequena perda de informação. Porém o organismo recupera uma parte. Há mecanismos presentes na orelha capazes de recuperar um pouco o sinal acústico perdido. A Concha Antítrago serve para isso.

Pesquisas demonstram que quem escuta primeiro é o sistema subconsciente cerebral para avaliar se a informação contém algum alerta de perigo. Se houver perigo o sistema de proteção do cérebro será ativado mesmo antes de você saber com exatidão o que está acontecendo. É por isso que primeiro você toma um susto e corre… Depois vai ver o que aconteceu.

Curiosidade: Você sabia que um bebê tem todos os sentidos cruzados para poder mapear o ambiente e formar memórias?

Conseguimos nos concentrar em apenas um som mesmo em meio a muita informação sonora. É apenas por este motivo que conseguimos conversar em um ambiente ruidoso… Por causa do chamado Efeito coquetel: foco na atenção auditiva. O efeito coquetel é o fenômeno da capacidade do cérebro para focalizar a auditiva atenção (um efeito de atenção seletiva no cérebro) em um determinado estímulo, enquanto filtrando uma série de outros estímulos, como quando um folião pode se concentrar em uma única conversa em um quarto barulhento.(Fonte Wikipedia)

Auralização e audição binaural

Já observou como um cachorro ou um cavalo rotacionam o pavilhão auditivo para ouvir em mais de uma direção? As orelhas humanas se movimentavam no passado. E há algumas pessoas com vestígios deste movimento. Por que perdemos este movimento? Uma resposta provável é porque não precisamos mais dele. E isso pode ter acontecido ou porque aprendemos a escutar de uma forma diferente ou porque não precisamos escutar da mesma forma que anteriormente.

Vestígios de músculos para a movimentação da orelha
Fonte: Assombrado.com.br

Nossa audição é binaural. Usamos duas orelhas de forma coordenada para ouvir. É um sofisticado sistema de mapeamento de localização no tempo e no espaço, associado ao reconhecimento de memórias e julgamentos de situação tão rápidos que parte dele é inconsciente. Simular matematicamente uma fonte sonora de forma que o cérebro associe a informação a alguma memória é possível, mas não é simples porque a audição é complexa e o funcionamento do cérebro também. Apenas simular uma fonte sonora é mais simples. Juntando as condições onde isso acontece, para saber por exemplo como uma sala de audição musical funcionará antes de construí-la, chamamos de auralização.

É possível enganar o Cérebro! Se você acha que não… Visite:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s